Zabbix
Zabbix 8.0 LTS na tela: nova interface, widgets, dashboards versionáveis e o app mobile oficial
Nos dois primeiros artigos desta série (Parte 1 e Parte 2), olhamos para o que o Zabbix 8.0 traz de novo em observabilidade e inteligência artificial e para o núcleo que sustenta tudo isso. Agora é a vez da camada que todo mundo vê: a interface. E é um erro tratar esse tema como cosmético. Para quem está no NOC às três da manhã, a quantidade de cliques até chegar ao dado certo é tempo de resposta. Para quem administra dezenas de dashboards, a capacidade de replicá-los entre ambientes é produtividade. E para quem está de sobreaviso, receber o alerta no celular com contexto suficiente para agir é a diferença entre resolver da cama ou sair correndo para o notebook.
O Zabbix 8.0 tem um volume grande de mudanças nessa camada. Algumas são pedidos antigos da comunidade finalmente atendidos, outras abrem novas formas de trabalhar. E há o aplicativo móvel oficial, uma das novidades mais votadas do roadmap e que será lançado junto com a versão.
Status das funcionalidades. A maior parte das novidades de interface deste artigo já está na documentação oficial do 8.0 e foi entregue nas versões alpha e beta e RC1, como tema dark blue, tabelas customizáveis, Scatter plot, melhorias no widget Graph, import/export de dashboards, validação inline,formulários modais e colocar triggers em manutençao ad-hoc. O aplicativo móvel ainda aparece como “em breve” no site oficial, com lançamento previsto junto com o 8.0.
Uma interface que se adapta a quem opera
A mudança de maior impacto no dia a dia talvez seja a mais simples de explicar: tabelas customizáveis. Nas telas de Problemas, Últimos dados e Hosts, na seção de monitoramento, e nas listas de hosts e templates, na coleta de dados, agora é possível ocultar, reordenar e redimensionar colunas. Também é possível adicionar uma coluna de texto personalizado, preenchida com texto fixo, valores de macros ou ambos. Algumas colunas ganham um botão de opções que controla como os dados são exibidos, e parte dos parâmetros que antes ficavam no filtro migrou para essas opções de coluna. Esse item estava entre os mais votados pela comunidade.
O efeito prático é que cada perfil de usuário passa a enxergar o que importa para ele. Um analista de NOC pode reduzir a tela de problemas às colunas de severidade, host, duração e uma coluna personalizada com a macro de contato do responsável ou o código do cliente. Uma equipe de banco de dados pode destacar, em Últimos dados, as colunas que fazem sentido para ela. Um provedor que atende vários clientes pode exibir, ao lado de cada host, uma macro com o identificador do contrato. É o fim da interface igual para todos.
Um alerta para quem vai atualizar: como alguns parâmetros de filtro foram movidos para as opções de coluna, quem usa abas de filtros favoritos na tela de problemas deve revisar essas configurações depois do upgrade.
Na mesma linha, o 8.0 traz um novo tema, o dark blue, novas fontes embutidas e melhorias de acessibilidade. Os formulários de configuração passam a abrir em janelas modais e ganham validação inline, com erros apontados em tempo real, campo a campo, em vez de uma mensagem genérica depois de clicar em salvar. As tags herdadas de templates e hosts ficam visíveis em itens e triggers, os detalhes de um evento passam a mostrar o motivo da supressão, e as expressões regulares globais ganham um formulário modal, filtro por nome e descrição e a possibilidade de exportação e importação. O roadmap ainda menciona uma revisão geral de usabilidade das telas e formulários existentes.
Individualmente, cada item parece pequeno. Somados, eles reduzem o atrito de quem configura e opera o Zabbix todos os dias. E têm um efeito que interessa diretamente às equipes: uma ferramenta mais fácil de usar exige menos treinamento para novos analistas e gera menos erros de configuração.
Widgets e gráficos: responder perguntas mais rápido
O widget Graph, o principal gráfico dos dashboards modernos do Zabbix, recebe um conjunto de melhorias que a comunidade pedia desde 2018. O pedido original somou 65 votos e foi entregue no alpha2 do 8.0. Entre as mudanças estão um tooltip mais útil, com valores ordenados e horário exibido; novas opções de legenda; um algoritmo de cores mais distintas entre séries; um caminho claro para voltar após um zoom; e a possibilidade de inverter o eixo Y, multiplicando os valores por menos um sem alterar os dados originais.
Parece detalhe até alguém precisar comparar tráfego de entrada e saída de um link no mesmo gráfico. Com a inversão, a entrada fica acima do eixo e a saída abaixo, no formato espelhado que qualquer engenheiro de redes reconhece de imediato. E o tooltip ordenado por valor resolve a situação comum de um gráfico com vinte séries em que é preciso descobrir, em segundos, qual delas está no topo.
O widget novo mais interessante é o Scatter plot, ou gráfico de dispersão. Ele plota a relação entre duas métricas, cada ponto posicionado por um valor no eixo X e outro no eixo Y, e com isso revela padrões, agrupamentos, correlações e pontos fora da curva. É um tipo de visualização que muda a pergunta que se faz ao dado. Em vez de “como esta métrica variou no tempo?”, passa a ser “estas duas métricas andam juntas?”. Número de conexões contra uso de CPU em um pool de servidores web, latência contra volume de requisições em uma API, temperatura contra consumo de energia em um rack: quando um ponto aparece isolado do grupo, é ali que está o servidor que se comporta diferente dos outros. Não é coincidência que esse widget chegue na mesma versão que traz o processamento complexo de eventos e a abertura para agentes de IA. É uma ferramenta visual de análise, não apenas de acompanhamento.
Completam o pacote o controle de agrupamento (clustering) de marcadores no widget Geomap, útil para quem monitora infraestrutura distribuída geograficamente, colunas agregadas no widget Top items, um limite maior de caracteres na descrição dos widgets, ajustes no fuso horário do widget Clock e uma configuração de slideshow para dashboards. O roadmap também prevê a possibilidade de maximizar um widget, expandindo-o para ocupar todo o espaço do dashboard. É um pedido que existe desde 2018 e está marcado para a release candidate, mas ainda não havia sido entregue até o fechamento deste texto.
Dashboards como artefatos: exportar, importar, versionar
Entre as mudanças visuais, esta é a que mais altera a forma de trabalhar. O Zabbix 8.0 permite exportar e importar dashboards, nos formatos YAML, XML e JSON, e o roadmap destaca também a possibilidade de copiar e colar widgets e dashboards entre sistemas. Esse era um dos pedidos mais votados de toda a história do produto.
Até aqui, um dashboard era algo montado à mão, clique a clique, que vivia apenas dentro do banco de dados de uma instância. Levar um dashboard de homologação para produção significava refazê-lo ou recorrer a scripts via API. Replicar o mesmo painel para vinte clientes de um provedor de serviços era trabalho braçal. Com a exportação, o dashboard vira um arquivo. E um arquivo pode ser versionado em Git, revisado antes de entrar em produção, reaproveitado entre ambientes e distribuído como parte de um pacote padrão de monitoramento.
Isso aproxima o Zabbix de uma prática que já é comum em outras camadas da infraestrutura: tratar configuração como código. Templates já podiam ser exportados havia muito tempo; agora os dashboards entram na mesma lógica. Para consultorias e equipes que padronizam entregas, o ganho é imediato. Para quem mantém ambientes de homologação sérios, como discutimos no artigo anterior sobre o upgrade, é mais uma peça que passa a poder ser testada antes de chegar à produção.
Manutenção ad-hoc: agir sobre o problema sem sair da tela
Uma dor antiga de quem opera NOC é a trigger que fica oscilando entre problema e normal. Hoje já é possível suprimir manualmente um problema, mas, quando ele se resolve e volta a disparar, um novo evento aparece. A alternativa é criar um período de manutenção, o que exige sair da tela de problemas, configurar hosts ou tags e definir horários. Isso é inviável no ritmo de um plantão.
O roadmap do 8.0 prevê a ação de colocar em manutenção, com um clique, os problemas selecionados ou filtrados. O pedido de origem descreve exatamente o cenário: suprimir todos os eventos de uma trigger por um período determinado, direto da janela de atualização do problema, sem precisar mexer no cadastro de manutenções. A funcionalidade estava em fase de testes, com previsão para a release candidate.
É uma mudança que aproxima a interface da forma como o NOC realmente trabalha. Mas também é uma ferramenta que pede política de uso. Suprimir eventos com um clique é ótimo para lidar com uma trigger oscilando durante uma intervenção conhecida, e perigoso se virar atalho para esconder problemas que ninguém quer investigar. A boa notícia é que o próprio 8.0 passa a exibir o motivo da supressão nos detalhes do evento, o que ajuda a manter rastreabilidade.
O aplicativo móvel oficial
Durante anos, quem queria usar o Zabbix no celular tinha duas opções: acessar a interface web pelo navegador do telefone, pouco prática em tela pequena, ou recorrer a aplicativos de terceiros, alguns bem maduros, mas sem o selo de produto oficial. O roadmap do 8.0 traz o aplicativo móvel oficial da Zabbix para iOS e Android, com notificações push, acesso a problemas e dados históricos e funções de gestão de problemas, lançado junto com a versão LTS. Foi um dos itens mais votados pela comunidade.
A página oficial do aplicativo ainda está no modo “em breve”, mas a política de privacidade publicada em setembro de 2026 revela bastante sobre como ele funciona. O aplicativo não cria uma conta separada: o usuário entra com as credenciais que já tem em um Zabbix Server ou no Zabbix Cloud, concedidas pelo administrador. Existe um processo de registro que vincula o dispositivo a um servidor, com uso da câmera apenas para leitura de QR code. A autenticação biométrica do próprio aparelho é suportada, sem que a Zabbix receba dados biométricos. As notificações push são entregues pelos serviços das plataformas, como o Apple Push Notification service e o Firebase Cloud Messaging. E a infraestrutura de apoio ao aplicativo roda na AWS, com dados tratados dentro do Espaço Econômico Europeu. O documento também afirma que o aplicativo não cria nem mantém uma cópia separada dos dados de monitoramento acessados por ele.
O cenário de uso é o de qualquer equipe com plantão. O analista de sobreaviso recebe a notificação, abre o problema no próprio aplicativo, consulta o histórico da métrica, reconhece o evento e escreve um comentário para a equipe, tudo antes de decidir se precisa ou não abrir o notebook. Para gestores, é a possibilidade de acompanhar a saúde dos serviços críticos de qualquer lugar. O Summit 2026 tem uma sessão dedicada a mostrar como o aplicativo aproxima o monitoramento das pessoas que precisam agir.
Há, porém, pontos que cada organização deve avaliar antes de liberar o uso. O primeiro é a arquitetura: o registro de dispositivos e as notificações passam por infraestrutura da Zabbix e dos provedores das plataformas móveis, o que pode exigir análise da área de segurança e de proteção de dados, especialmente em órgãos públicos e setores regulados. O segundo é a política de acesso: quais perfis terão permissão para agir sobre problemas pelo celular. E o terceiro são detalhes que só ficarão totalmente claros no lançamento, como compatibilidade com versões anteriores do Zabbix e condições comerciais.
Por que isso importa agora
Na observabilidade, a disputa por atenção é permanente. As equipes lidam com volumes crescentes de dados, alertas e ferramentas, e a interface é o ponto em que tudo isso encontra um ser humano com tempo limitado. Plataformas comerciais investiram pesado em experiência de uso nos últimos anos, e muitas equipes que usam Zabbix recorrem a ferramentas externas, como o Grafana, para suprir lacunas de visualização.
O Zabbix 8.0 responde a isso em várias frentes ao mesmo tempo: interface que se adapta ao perfil de cada usuário, gráficos que respondem perguntas mais rápido, dashboards tratados como código, ações de operação mais próximas do fluxo real do NOC e presença oficial no celular. E o roadmap mostra que o movimento continua nas próximas versões, com dashboards multinível, dashboards que reúnem dados de várias instâncias do Zabbix e widgets dinâmicos baseados em protótipos, temas do próximo e último artigo desta série.
Visão do especialista
Das novidades de interface, as que mais me chamaram atenção foram as tabelas customizáveis, tanto nas visualizações de dados quanto nas telas de configuração do ambiente. Cada usuário tem a sua forma de trabalhar, e poder ajustar a tela ao próprio fluxo ajuda a economizar cliques e minutos na operação. Parece pouco, mas multiplicado por dezenas de analistas e centenas de consultas por dia, faz diferença real.
Do ponto de vista dos administradores, a novidade que eu mais comemorei foi a importação e exportação de dashboards. Já passei pela experiência de migrar centenas de dashboards entre ambientes e, para isso, tive que desenvolver scripts usando a API do Zabbix. Essa novidade resolve essa dor de forma nativa e ainda abre espaço para o versionamento dos dashboards, algo que as equipes mais maduras vão aproveitar muito bem.
O aplicativo móvel tende a facilitar muito a vida de times técnicos e gestores, e as expectativas são altas. Mas a questão da arquitetura e da segurança de acesso ainda é um grande desafio, principalmente para ambientes on-premise. Haverá muito debate entre as equipes de monitoração, infraestrutura e segurança antes que o aplicativo seja liberado em muitas organizações.
A facilidade de colocar alertas em período de manutenção traz agilidade, mas também a necessidade de regras claras. O time de NOC precisa estar bem alinhado com o time técnico de produção sobre quando e como usar esse recurso. A praticidade não pode mascarar um problema real.
Por fim, as mudanças são consideráveis, e os times de NOC e de operações vão precisar passar por treinamento na nova versão, tanto para se adaptarem rapidamente quanto para saberem aproveitar as melhorias. Conhecer a nova interface e as novas funcionalidades deixa de ser opcional para quem quer se manter atualizado. No fim do dia, é sempre sobre maior produtividade.
Conclusão
O Zabbix 8.0 trata a interface como parte da operação, e não como acabamento. Tabelas que se adaptam ao usuário, gráficos mais informativos, um widget de correlação visual, dashboards exportáveis e versionáveis, ações de manutenção mais próximas do problema e um aplicativo móvel oficial formam um conjunto que reduz atrito e tempo de resposta. Nem tudo estará disponível no primeiro dia, e o aplicativo ainda precisa mostrar na prática como se encaixa nas políticas de cada empresa. Mas a direção é clara: o Zabbix quer ser usado com mais facilidade, por mais gente e em mais lugares.
No próximo e último artigo da série, vamos olhar para além do 8.0: o que o roadmap mostra para as versões 8.2, 8.4 e 9.0, e para onde o produto está caminhando.
Fontes
- Zabbix Roadmap (oficial)
- What’s new in Zabbix 8.0 — documentação oficial (versão de desenvolvimento)
- Zabbix Mobile App — página oficial
- Zabbix Mobile Application Privacy Policy (set/2026)
- ZBXNEXT-4769 — Melhorias de usabilidade do widget Graph
- ZBXNEXT-8339 — Manutenção ad-hoc / supressão de eventos de uma trigger
- ZBXNEXT-4774 — Maximizar widgets do dashboard
- ZBXNEXT-5419 — Importação e exportação de dashboards
- Zabbix Summit 2026 — agenda
Sobre o autor
Luciano Souza, Consultor Associado da Target Solutions.
Sobre a Target Solutions
A Target Solutions é especializada em infraestrutura de TI e redes, atuando na interseção entre operação, automação e monitoramento em escala. Com mais de 15 anos de experiência técnica, combinamos soluções open source com práticas operacionais maduras para transformar ambientes complexos em operações mais eficientes, previsíveis e escaláveis.
Como Zabbix Certified Partner e parceira oficial da Zabbix no Brasil, contamos com profissionais certificados (Expert, Professional e Specialist), com ampla experiência na implantação, evolução, sustentação N2/N3 e otimização de ambientes Zabbix corporativos de grande porte — desde arquiteturas distribuídas com proxies regionais até ambientes com milhares de ativos monitorados e integrações com ITSM e ferramentas de observabilidade.
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