AIOps
O contexto operacional protege seu investimento em IA
Quando a tecnologia muda mais rápido do que o investimento consegue amadurecer
No artigo “Sua empresa já investiu em IA. Mas está obtendo todo o retorno possível?”, discutimos uma mudança importante na agenda das organizações. Depois de uma primeira fase marcada pela experimentação, pela adoção de novos modelos e pelo desenvolvimento de agentes especializados, a questão começa a deixar de ser simplesmente quanto investir em Inteligência Artificial.
Para muitas empresas, o desafio agora é compreender como ampliar continuamente o retorno dos investimentos que já foram realizados e transformar iniciativas inicialmente independentes em uma capacidade operacional permanente.
Essa preocupação se torna ainda mais relevante quando consideramos uma característica particular do atual ciclo tecnológico, que é a velocidade com que a própria Inteligência Artificial está evoluindo. Modelos que há pouco tempo representavam o estado da arte são rapidamente superados, novas arquiteturas ganham espaço, agentes incorporam capacidades antes inexistentes e fornecedores tradicionais passam a incluir recursos de IA em praticamente todas as camadas de seus produtos.
Para as empresas, acompanhar essa evolução é inevitável, mas também cria uma questão estratégica que nem sempre recebe a mesma atenção dedicada à escolha das novas tecnologias.
Quanto do investimento realizado hoje continuará produzindo valor quando a tecnologia utilizada para construí-lo mudar?
A pergunta é especialmente importante porque um projeto corporativo de IA envolve muito mais do que o custo de um modelo ou de uma licença.
Existe investimento na integração com sistemas existentes, preparação e organização das informações, desenvolvimento de agentes, construção de mecanismos de recuperação de conhecimento, automações, definição de processos, treinamento das equipes e incorporação da solução às rotinas operacionais.
Ao longo do tempo, a organização acumula também conhecimento sobre como aquela IA deve interpretar seu ambiente e atuar dentro dele. Uma parcela relevante do investimento, portanto, está na construção de tudo aquilo que permite transformar uma tecnologia genérica em uma solução capaz de produzir valor dentro de uma empresa específica.
É justamente aí que surge um risco pouco evidente. Se essa compreensão da organização estiver excessivamente incorporada a um determinado agente, modelo ou fornecedor, uma futura mudança tecnológica poderá exigir não apenas substituir uma ferramenta, mas reconstruir parte do conhecimento que havia sido estruturado ao redor dela.
Nesse cenário, a rápida evolução da IA deixa de representar apenas uma oportunidade e passa a criar também um problema de preservação do investimento.
Essa preocupação começa a aparecer nas pesquisas sobre geração de valor com IA. O estudo The State of AI: How Organizations Are Rewiring to Capture Value, da McKinsey, mostra que a adoção da tecnologia já se disseminou amplamente, enquanto a captura de impacto econômico em escala continua muito mais concentrada.
O estudo chama atenção, entre outros fatores, para a necessidade de redesenhar processos, estabelecer mecanismos de governança e acompanhar indicadores capazes de relacionar as iniciativas de IA aos resultados do negócio. Em outras palavras, a distância entre adotar IA e transformá-la em valor sustentável continua relevante.
Essa diferença ajuda a ampliar nossa compreensão sobre retorno do investimento. Avaliar ROI apenas pelo resultado imediato de um agente ou de um determinado caso de uso pode ser insuficiente. Em ambientes nos quais a tecnologia muda rapidamente, também precisamos considerar quanto do conhecimento, das integrações e da capacidade operacional construídos durante aquele projeto poderá continuar sendo aproveitado quando novos modelos, novos agentes ou novas plataformas forem incorporados.
Sob essa perspectiva, proteger o investimento em IA não significa impedir que a tecnologia seja substituída. Significa justamente o contrário, ou seja, a ideia é construir uma arquitetura na qual seja possível evoluir a tecnologia sem perder o conhecimento operacional acumulado pela organização.
Nem todo conhecimento construído com IA pertence à IA
Essa distinção se torna mais clara quando observamos o que acontece durante o desenvolvimento de um agente especializado. Parte importante de sua capacidade pode vir do próprio modelo e do conhecimento técnico que ele já possui.
Um agente dedicado a banco de dados, por exemplo, pode conhecer profundamente Oracle ou PostgreSQL, outro pode dominar Kubernetes, um terceiro pode possuir grande capacidade para interpretar logs, métricas ou traces.
Esse conhecimento especializado pode ser extremamente sofisticado, mas continua sendo, em grande medida, reutilizável entre diferentes organizações. O que transforma esse conhecimento genérico em capacidade operacional específica é aquilo que a empresa acrescenta a ele.
Para investigar um incidente real, não basta conhecer Kubernetes. É necessário compreender quais aplicações executam naquele cluster, de quais serviços dependem, quais alterações ocorreram recentemente, que componentes sustentam determinado processo de negócio e quais sinais provenientes de outras plataformas ajudam a explicar o comportamento observado. Essa compreensão não pertence ao Kubernetes, ao modelo de linguagem ou ao fornecedor do agente. Ela pertence à organização.
Essa distinção já apareceu em artigos anteriores, quando discutimos que um agente pode conhecer profundamente uma ferramenta e, ainda assim, não compreender o incidente. Agora, porém, ela ganha uma dimensão econômica.
Toda vez que uma organização estrutura essas relações para tornar seus agentes mais eficientes, está construindo um ativo. Se esse ativo permanecer fortemente acoplado a cada iniciativa individual de IA, parte do investimento precisará ser reconstruída sempre que a arquitetura mudar. Quando ele é preservado de maneira independente e compartilhável, o mesmo conhecimento pode continuar produzindo valor para diferentes agentes e futuras gerações de tecnologia.
É nesse ponto que o contexto operacional deixa de ser apenas um requisito para melhorar diagnósticos e passa a fazer parte da discussão sobre proteção do investimento em Inteligência Artificial. O valor acumulado deixa de estar exclusivamente no agente que a empresa utiliza hoje e passa a residir também na representação que ela construiu sobre sua própria operação, uma representação que pode sobreviver às tecnologias que ajudaram a utilizá-la.
Isso muda a pergunta que devemos fazer ao avaliar uma iniciativa de IA. Além de perguntar quanto ela custa e qual resultado consegue produzir hoje, talvez seja igualmente importante perguntar quanto do conhecimento que estamos construindo com esse investimento continuará pertencendo à empresa e poderá ser reutilizado quando a próxima geração de IA chegar.
Essa pergunta será fundamental para compreendermos por que o contexto operacional pode funcionar não apenas como infraestrutura para agentes, mas como um mecanismo de preservação e multiplicação do capital tecnológico já investido pela organização.
Proteger o investimento não significa proteger a tecnologia
Existe uma tendência natural de associar a proteção de um investimento tecnológico à longevidade da solução escolhida. Durante muitos anos, essa lógica fez sentido. Grandes plataformas corporativas eram adquiridas com horizontes relativamente longos de utilização, e decisões de arquitetura frequentemente consideravam ciclos de cinco, dez ou até mais anos.
Nesse ambiente, proteger um investimento significava, em grande medida, escolher uma tecnologia suficientemente sólida para permanecer relevante durante boa parte desse período.
A Inteligência Artificial introduziu uma dinâmica diferente. A velocidade de evolução dos modelos, agentes e plataformas torna cada vez mais difícil imaginar que as tecnologias utilizadas hoje permanecerão inalteradas durante todo o período necessário para que as empresas capturem o retorno esperado de seus investimentos.
Isso não significa que as escolhas atuais estejam erradas ou que devam ser tratadas como temporárias. Significa apenas que uma estratégia de longo prazo precisa considerar, desde o início, a possibilidade de substituir componentes da arquitetura sem reconstruir todo o valor acumulado ao redor deles.
Essa questão ganha importância porque o investimento corporativo em IA continua crescendo rapidamente.
Segundo a IDC, no artigo A Deep Dive Into IDC’s Global AI and Generative AI Spending, os investimentos globais em Inteligência Artificial foram projetados em aproximadamente US$ 235 bilhões em 2024 e devem superar US$ 630 bilhões até 2028.
Mais importante do que o número absoluto é aquilo que ele representa, ou seja, à medida que a IA deixa a fase predominantemente experimental e passa a receber parcelas cada vez maiores dos orçamentos corporativos, cresce também a responsabilidade dos executivos de tecnologia de transformar esses investimentos em resultados mensuráveis e preservar o valor construído ao longo do tempo.
Nesse cenário, proteger o investimento não deveria significar preservar indefinidamente o agente, o modelo ou a plataforma escolhidos hoje. Uma estratégia mais resiliente consiste em identificar quais componentes representam capacidades substituíveis e quais representam conhecimento que deve permanecer sob domínio da organização.
Modelos podem ser substituídos por versões mais eficientes, agentes podem evoluir e fornecedores podem mudar, enquanto as relações entre aplicações, infraestrutura, serviços, eventos, mudanças e processos de negócio continuam representando uma realidade própria da empresa.
É justamente essa separação que permite tratar o contexto operacional como um ativo. Quanto menos esse contexto estiver preso a uma tecnologia específica, maior será a possibilidade de reutilizá-lo em novas iniciativas.
Um agente desenvolvido hoje pode utilizá-lo para investigar incidentes. Outro, no futuro, poderá empregá-lo para prever riscos, recomendar ações ou executar automações. A tecnologia responsável pelo raciocínio poderá mudar substancialmente, enquanto grande parte da compreensão necessária para que esse raciocínio faça sentido continuará sendo a mesma.
Essa abordagem também muda a forma como avaliamos o retorno dos projetos de IA. Parte do retorno continuará sendo medida pelos ganhos diretos de produtividade, redução de custos, aumento da qualidade ou aceleração de determinados processos.
Entretanto, à medida que a adoção amadurece, outra dimensão se torna relevante. Quanto da capacidade construída em cada projeto poderá ser reaproveitado pelos projetos seguintes?
Quanto maior essa reutilização, menor a necessidade de reconstruir integrações, relações e conhecimento contextual a cada nova iniciativa e, consequentemente, maior tende a ser o retorno acumulado do portfólio de IA.
Essa discussão está diretamente relacionada a um problema que começa a aparecer com maior clareza nas pesquisas sobre IA corporativa. No estudo The GenAI Divide: State of AI in Business 2025, do MIT, os pesquisadores destacam uma diferença expressiva entre experimentação e geração de impacto econômico, chamando atenção para as dificuldades das organizações em transformar pilotos de IA generativa em resultados mensuráveis em escala.
Entre os fatores discutidos está justamente a necessidade de sistemas capazes de aprender com contexto, adaptar-se aos processos específicos da organização e integrar-se adequadamente aos fluxos de trabalho existentes.
Essa constatação reforça uma diferença fundamental entre simplesmente financiar projetos de IA e construir uma capacidade corporativa de IA. No primeiro caso, cada iniciativa precisa justificar individualmente seu investimento e frequentemente reconstrói parte da infraestrutura necessária para funcionar. No segundo, os investimentos começam a se acumular sobre uma base comum, permitindo que aquilo que foi construído em um projeto reduza o esforço necessário e aumente o potencial de retorno dos projetos seguintes.
É nesse sentido que proteger o investimento em IA deixa de ser uma discussão sobre longevidade tecnológica e passa a ser uma discussão sobre reutilização do valor construído.
Quanto maior a capacidade de separar o conhecimento específico da organização das tecnologias que o utilizam em determinado momento, maior será a liberdade para incorporar novos modelos, agentes e fornecedores sem abandonar aquilo que já foi construído.
O contexto operacional cria uma base reutilizável para diferentes agentes
Essa lógica se torna particularmente relevante nas operações de TI porque o contexto necessário para compreender um incidente é, por definição, multifonte. Informações provenientes de ferramentas de monitoramento, plataformas de observabilidade, sistemas de ITSM, inventários, ambientes de nuvem, aplicações e diferentes componentes de infraestrutura precisam ser relacionadas para que um evento isolado possa ser interpretado dentro da realidade mais ampla da operação.
Quando cada agente precisa construir individualmente essas integrações e reconstruir seu próprio entendimento do ambiente, a organização multiplica esforços semelhantes. O investimento realizado para tornar um agente mais eficiente dificilmente beneficia os demais na mesma proporção, e cada nova iniciativa tende a carregar consigo parte dos mesmos custos de integração, contextualização e manutenção.
Mesmo quando os agentes são tecnicamente excelentes, a arquitetura continua fragmentando o investimento.
Uma camada compartilhada de contexto operacional altera essa dinâmica. Em vez de cada agente reconstruir individualmente a compreensão sobre a operação, diferentes soluções podem consumir uma representação comum das relações existentes entre eventos, recursos, aplicações, serviços e demais elementos relevantes.
Isso não elimina a especialização dos agentes. Ao contrário, permite que cada um continue fazendo aquilo que sabe fazer melhor, mas sobre uma base contextual que não precisa ser recriada a cada nova implementação.
Esse ponto é particularmente importante porque especialização e contexto possuem naturezas econômicas diferentes. O conhecimento de um agente sobre Oracle, Kubernetes, redes ou segurança pode ser desenvolvido por um fornecedor e utilizado por milhares de empresas.
O contexto que explica como esses componentes se relacionam dentro de uma organização específica, entretanto, precisa ser construído a partir daquela própria operação. É justamente por ser específico, acumulativo e reutilizável que esse contexto pode se tornar um patrimônio tecnológico da empresa.
Quando essa separação é preservada arquiteturalmente, uma mudança de agente deixa de significar necessariamente uma reconstrução completa do conhecimento operacional. A organização pode incorporar uma tecnologia mais eficiente, substituir determinado fornecedor ou experimentar uma nova geração de modelos mantendo disponível uma parcela importante daquilo que já foi construído.
O investimento anterior não desaparece com a tecnologia que o utilizava, porque parte relevante de seu valor permanece na camada de contexto.
Essa é uma diferença fundamental entre uma arquitetura orientada apenas à implantação de agentes e uma arquitetura orientada à construção de capacidade operacional.
Na primeira, o valor tende a acompanhar cada solução individual. Na segunda, parte crescente desse valor passa a pertencer à própria organização e pode ser reutilizada por diferentes soluções ao longo do tempo.
É também nesse ponto que retorno, governança e arquitetura começam a convergir. Quanto mais recursos as empresas destinarem à Inteligência Artificial, mais importante será saber não apenas quais projetos estão produzindo resultados, mas também quais ativos estão sendo construídos, quem os controla e quanto desse investimento poderá ser reutilizado pelas próximas iniciativas.
O contexto operacional passa, assim, a participar de uma discussão muito maior do que a simples melhoria do diagnóstico de incidentes, e começa a fazer parte da própria estratégia de preservação e evolução dos investimentos corporativos em IA.
O retorno aumenta quando o próximo projeto não precisa começar do zero
Existe uma consequência econômica importante quando o contexto operacional passa a ser tratado como um ativo compartilhado. Cada nova iniciativa de Inteligência Artificial deixa de precisar reconstruir integralmente aquilo que projetos anteriores já aprenderam sobre a organização.
Integrações, relações entre componentes, dependências entre serviços, histórico de eventos e outras informações necessárias para interpretar a operação podem formar uma base progressivamente reutilizável. Nesse cenário, parte do investimento realizado em um projeto passa a contribuir também para os projetos seguintes.
Essa lógica é bastante diferente daquela encontrada em ambientes nos quais cada iniciativa de IA evolui de forma independente.
Quando diferentes agentes constroem suas próprias integrações, mantêm bases de conhecimento isoladas e desenvolvem individualmente mecanismos para compreender o ambiente, a empresa pode acabar financiando repetidamente esforços semelhantes. Cada projeto pode apresentar um retorno positivo quando analisado isoladamente, mas o portfólio como um todo acumula redundâncias que dificultam a captura de valor em escala.
O problema se torna mais relevante à medida que cresce o número de iniciativas. Uma organização pode possuir agentes especializados em diferentes tecnologias, recursos de IA incorporados às plataformas de observabilidade, automações desenvolvidas internamente e soluções generativas utilizadas por diferentes equipes.
Cada uma dessas iniciativas pode cumprir adequadamente sua função, mas isso não significa necessariamente que o investimento realizado em uma delas esteja aumentando a capacidade das demais. Sem uma arquitetura que favoreça o compartilhamento e a reutilização do conhecimento, o crescimento do portfólio pode significar também o crescimento da fragmentação.
É nesse ponto que a discussão sobre retorno precisa ultrapassar a análise individual dos casos de uso.
A pergunta continua sendo quanto determinado agente economiza, quanto reduz o tempo de uma atividade ou quanto aumenta a produtividade de uma equipe, mas passa a incluir outra dimensão, ou seja, quanto da capacidade construída por esse investimento poderá ser utilizada novamente pela organização?
Quanto maior a resposta a essa segunda pergunta, maior tende a ser o efeito acumulado dos investimentos ao longo do tempo.
Essa preocupação aparece de forma clara no estudo The State of AI in 2025: Agents, Innovation, and Transformation, da McKinsey. A pesquisa mostra uma adoção ampla de IA nas organizações, mas também uma distância significativa entre utilização e geração de impacto empresarial em escala.
Entre as empresas que reportam maior impacto, aparecem com mais frequência práticas relacionadas ao redesenho de processos, à definição de mecanismos de governança e à integração da IA aos fluxos de trabalho, reforçando a ideia de que o retorno depende de mudanças mais amplas do que a simples disponibilização de novos recursos tecnológicos.
Essa perspectiva ajuda a explicar por que a arquitetura passa a exercer influência crescente sobre o retorno.
Quando uma nova iniciativa consegue aproveitar integrações, relacionamentos e conhecimento contextual previamente construídos, o investimento anterior continua produzindo valor mesmo fora do caso de uso que originalmente o justificou. Em vez de uma sucessão de projetos independentes, começa a surgir uma infraestrutura acumulativa na qual cada nova capacidade pode se beneficiar daquilo que a organização já desenvolveu.
O efeito pode ser especialmente relevante nas operações de TI. Um relacionamento identificado entre uma aplicação, um serviço de negócio e determinados componentes de infraestrutura pode ser útil para um agente responsável pela investigação de incidentes, mas não precisa permanecer restrito a ele.
A mesma relação poderá apoiar outro agente na análise de mudanças, na avaliação de impacto, na recomendação de ações ou em futuras formas de automação que sequer estavam previstas quando aquela informação foi inicialmente estruturada.
Nesse sentido, o contexto operacional produz uma característica particularmente importante para o retorno do investimento que é a reutilização. O valor deixa de estar limitado ao resultado produzido por uma determinada tecnologia e passa a incluir a possibilidade de aproveitar continuamente o conhecimento construído em novas aplicações.
Quanto mais essa base evolui, maior tende a ser a capacidade de incorporar novas tecnologias sem repetir integralmente os investimentos realizados nas etapas anteriores.
Essa mudança também altera a forma como devemos interpretar a ideia de proteção do investimento. Proteger não significa garantir que uma determinada solução permanecerá em uso durante muitos anos. Em um mercado com a velocidade de transformação atual, essa provavelmente seria uma expectativa pouco realista.
Proteger o investimento realizado significa aumentar a parcela do investimento que continua gerando valor mesmo quando os componentes tecnológicos da arquitetura são substituídos. E o contexto operacional torna-se particularmente relevante porque representa justamente aquilo que tende a permanecer.
Modelos podem mudar, agentes podem evoluir e fornecedores podem ser substituídos, mas a necessidade de compreender como aplicações, serviços, infraestrutura, eventos, mudanças e processos se relacionam continuará existindo. Quando esse conhecimento é construído como patrimônio reutilizável da organização, a evolução tecnológica deixa de ameaçar o investimento anterior e pode, ao contrário, ampliar seu valor.
Proteger o investimento também exige saber o que está sendo construído
Essa discussão conduz a uma segunda dimensão que não pode ser separada do retorno: governança. À medida que as empresas multiplicam suas iniciativas de Inteligência Artificial, torna-se mais difícil compreender não apenas quanto está sendo investido, mas também quais capacidades estão sendo construídas, quais informações estão sendo utilizadas, quais integrações estão sendo repetidas e quanto do conhecimento gerado permanece disponível para outras iniciativas.
Governar investimentos em IA, portanto, não deveria significar apenas controlar orçamento, fornecedores ou consumo de modelos. Esses elementos são importantes, mas oferecem uma visão incompleta do patrimônio que está sendo criado.
Uma organização pode conhecer precisamente o custo de determinado agente e ainda ter pouca visibilidade sobre quanto do conhecimento construído para fazê-lo funcionar poderá ser reaproveitado em outros projetos.
Essa perspectiva aproxima governança e arquitetura. Quanto mais fragmentado estiver o contexto utilizado pelas diferentes iniciativas, mais difícil será avaliar redundâncias, identificar capacidades reutilizáveis e compreender a dependência existente em relação a tecnologias específicas.
Por outro lado, quando uma parcela relevante desse contexto é tratada como uma capacidade compartilhada, torna-se mais fácil separar aquilo que pertence à organização daquilo que pertence ao agente, ao modelo ou ao fornecedor utilizado em determinado momento.
Essa separação tende a ganhar importância à medida que os investimentos aumentam. A questão já não será apenas escolher quais projetos financiar, mas compreender qual patrimônio tecnológico cada projeto deixa para a organização depois que o investimento é realizado.
Uma iniciativa capaz de produzir resultados imediatos e, simultaneamente, ampliar uma base reutilizável de conhecimento pode gerar um retorno estrutural muito maior do que outro projeto cujo valor permaneça restrito à solução que o originou.
É nesse ponto que retorno, proteção e governança começam a formar partes de uma mesma estratégia. O retorno mostra quanto valor está sendo produzido, a governança permite compreender e controlar como esse valor está sendo construído, enquanto a arquitetura determina quanto dele poderá permanecer disponível quando as tecnologias inevitavelmente evoluírem.
Para empresas que já possuem diferentes iniciativas de Inteligência Artificial, essa talvez seja uma das perguntas mais importantes da próxima etapa de adoção: estamos apenas financiando novos projetos de IA ou estamos, a cada novo projeto, aumentando uma capacidade que permanecerá pertencendo à organização?
O ativo mais duradouro talvez não seja a própria IA
A velocidade de evolução da Inteligência Artificial torna arriscado tentar prever quais modelos, agentes ou plataformas ocuparão uma posição dominante nos próximos anos.
Algumas tecnologias utilizadas hoje certamente continuarão evoluindo, outras serão substituídas e novas alternativas surgirão com capacidades que ainda não conseguimos antecipar.
Para as organizações, essa transformação não deveria ser interpretada apenas como um risco. Ela representa também a possibilidade de incorporar continuamente tecnologias melhores, desde que a arquitetura permita fazer isso sem abandonar parte significativa do valor construído anteriormente.
É por essa razão que a discussão sobre proteção do investimento precisa ultrapassar a escolha da tecnologia. Quanto maior o volume de recursos destinados à Inteligência Artificial, mais importante se torna identificar quais ativos devem permanecer sob controle da organização e continuar produzindo valor independentemente das mudanças que ocorram no mercado.
Em operações de TI, uma parcela importante desse patrimônio está no conhecimento acumulado sobre o próprio ambiente e, principalmente, nas relações que permitem interpretar informações provenientes de diferentes domínios como partes de uma mesma realidade operacional.
Esse conhecimento não nasce pronto em um modelo de linguagem. Também não pode ser adquirido integralmente de um fornecedor, porque cada organização possui uma combinação particular de aplicações, infraestrutura, serviços, processos, integrações, equipes e regras de negócio.
Um agente pode conhecer profundamente Oracle, Kubernetes, AWS ou uma plataforma de observabilidade, mas somente a própria empresa pode construir e preservar a compreensão de como essas tecnologias se relacionam dentro de sua operação e de que maneira essas relações afetam os serviços entregues ao negócio.
Quando essa compreensão permanece distribuída entre ferramentas, agentes e bases de conhecimento independentes, parte relevante do investimento necessário para construí-la tende a permanecer igualmente fragmentada.
Cada nova iniciativa precisa descobrir novamente uma parcela da operação, reconstruir relações ou desenvolver integrações semelhantes às que já haviam sido implementadas anteriormente. O custo dessa fragmentação não aparece necessariamente como uma linha específica do orçamento de IA, mas se manifesta na repetição de esforços, no aumento da complexidade e no tempo necessário para fazer cada nova iniciativa alcançar resultados relevantes.
Uma arquitetura baseada em contexto operacional compartilhado procura inverter essa lógica. O conhecimento construído deixa de servir exclusivamente ao agente ou ao caso de uso que justificou originalmente sua criação e passa a compor uma base que pode ser continuamente enriquecida e reutilizada.
Da visão à prática
Transformar contexto operacional em um ativo reutilizável exige mais do que reunir dados em um único lugar. É necessário relacionar informações provenientes de diferentes fontes, preservar as dependências existentes entre os componentes da operação e disponibilizar esse conhecimento de forma que possa ser utilizado por pessoas, sistemas e diferentes agentes de Inteligência Artificial.
É nessa camada intermediária, entre as plataformas que produzem informações e as tecnologias que precisam interpretá-las, que se encontra uma das principais oportunidades para proteger e potencializar os investimentos já realizados.
Essa é uma das premissas que orientam o desenvolvimento do ARGUS AIOps. A plataforma atua como uma camada de contexto operacional multifonte, consolidando e correlacionando informações provenientes de diferentes ferramentas e ambientes para construir uma representação compartilhada da operação.
Em vez de exigir a substituição das soluções existentes, essa arquitetura procura aproveitar o conhecimento e os dados já disponíveis e torná-los mais úteis para os diferentes processos de análise, diagnóstico e automação.
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Sobre o autor
Paulo Florêncio de Menezes é cofundador da Target Solutions e atua há mais de 15 anos em projetos relacionados a infraestrutura, monitoramento, observabilidade, automação e operações de TI e Telecom.
É graduado em Processamento de Dados pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Dom Cabral (FDC) e Mestrado Profissional em Economia pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Em sua pesquisa de Mestrado, desenvolveu o IBEOP-IA (Índice Brasileiro de Exposição Ocupacional Potencial à Inteligência Artificial), investigando a exposição potencial das ocupações brasileiras às capacidades da IA por meio da combinação de dados ocupacionais, patentes de inteligência artificial e técnicas de processamento de linguagem natural.
Sobre a Target Solutions
A Target Solutions atua há mais de 15 anos apoiando organizações na evolução de suas operações de infraestrutura, monitoramento, observabilidade, automação e AIOps. Ao longo desse período, participou de projetos em ambientes complexos dos setores de Telecom, Tecnologia, Governo, Energia e grandes empresas, com foco no aumento da eficiência operacional e da confiabilidade dos serviços.
Como parte dessa experiência, desenvolveu o ARGUS, uma plataforma de AIOps que complementa as ferramentas já utilizadas pelas organizações e atua como uma camada de inteligência contextual sobre o ecossistema operacional existente.
O ARGUS integra informações provenientes de múltiplas fontes, correlacionando eventos, alarmes, dados de observabilidade, relacionamentos entre componentes, topologia, mudanças, histórico e outras evidências disponíveis no ambiente.
Essa abordagem permite que operadores, especialistas e agentes de Inteligência Artificial trabalhem sobre o mesmo contexto, reduzindo o esforço de investigação, acelerando a identificação da causa provável dos incidentes e apoiando decisões mais rápidas e seguras.
O objetivo não é substituir as ferramentas especializadas já utilizadas pela organização. É conectar as perspectivas produzidas por elas e transformar informações dispersas em contexto operacional compartilhado.
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